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O Santuário
O pai do Mullá Nasruddin era o respeitadíssimo guardião de um santuário, abrigo do túmulo de um grande mestre, e local de peregrinação que atraia tanto a credulos como a Buscadores da Verdade.
Era de se esperar, pelo curso natural dos acontecimentos, Nasruddin viesse a herdar aquela posição. Mas logo após seu décimo quinto aniversário, quando passou a ser considerado um homem, decidiu seguir a velha máxima: "Busca o conhecimento, ainda que seja na China".
"Não tentarei te dissuadir, meu filho", disse o pai. Então, Nasruddin selou um jumento e pôs-se a caminho.
Visitou as terras do Egito e da Babilônia, vagou pelo Deserto da Arábia, foi para o norte em direção à Iconium, Bakhara, Samarkanda, e às montanhas do Hindu-Kush, associando-se a dervixes e sempre avançando rumo ao Extremo Oriente.
Após um desvio pelo Tibet, lá ia Nasruddin atravessando com grande esforço as cordilheiras de Kashmir, quando sucedeu que seu jumento, sem conseguir superar a atmosfera rarefeita e as privações, desfaleceu e morreu.
Uma tristeza profunda abateu-se sobre Nasruddin, pois o jumento havia sido o único companheiro de todas as jornadas que já duravam doze anos ou mais. Com o coração partido, enterrou seu amigo e ergueu sobre a sepultura um singelo montículo de terra. Ali permaneceu em meditação silenciosa; sobre sua cabeça, projetavam-se imponentes montanhas, lá embaixo, impetuosas torrentes.
Os viajantes da rota das montanhas entre a Índia e a Ásia Central, China e os santuários do Turquestão não tardaram em perceber aquela figura solitária, ora chorando a perda infligida, ora de olhos pregados nos vales de Kashmir.
"Sem dúvida deve ser o túmulo de um homem santo", disseram-se uns aos outros, "e não de um qualquer, de poucos dons, haja visto como seu discípulo lamenta sua morte. Ora, está por aqui já fazem alguns meses e seu pesar não dá sinais de esmorecer"
Não tardou para que passasse um homem rico, que ordenou fosse ali construído, em sinal de devoção, um imponente santuário. Outros peregrinos aplainaram os terrenos montanhosos a volta nos quais plantaram sementes, cujos frutos destinavam-se à manutenção do santuário. A fama do Dervixe em Luto Silencioso propagou-se de tal maneira, que acabou chegando aos ouvidos do pai de Nasruddin, que, imediatamente, veio em peregrinação ao local santificado. Assim que viu Nasruddin, perguntou-lhe o que havia sucedido. Nasruddin contou-lhe tudo. Perplexo, o velho levantou as mãos para o céu.
"Saiba, ó filho meu", exclamou, "que o santuário no qual cresceste e que abandonaste foi erguido exatamente da mesma maneira, através de uma cadeia similar de eventos, quando meu próprio jumento morreu há uns trinta anos atrás."
Nunca perco um bom negócio
Nasruddin tinha tanta coisa contra seu jumento, que o mais óbvio a fazer seria vendê-lo para poder arranjar outro. Então foi ao mercado, encontrou o leiloeiro e entregou-lhe o jumento para que fosse vendido.
Quando o animal foi exposto à venda, lá estava Nasruddin de prontidão.
"E o próximo lote", anunciou o leiloeiro, "é este soberbo, inigualável, maravilhoso jumento. Quem dá o primeiro lance, oferecendo cinco moedas de ouro?"
"Só cinco moedas de ouro por um jumento?", impressionou-se Nasruddin. Então, ele mesmo abriu o leilão. À medida que o preço ia ficando mais e mais alto, com o leiloeiro apregoando a cada lance as maravilhas daquele jumento, Nasruddin foi ficando mais e mais ansioso por comprá-lo. Afinal, a disputa concentrou-se entre Nasruddin e um fazendeiro. Assim que se alcançou o lance de quarenta moedas de ouro, o leiloeiro bateu o martelo e o jumento foi arrematado por Nasruddin.
Pagou ao leiloeiro a comissão de um terço e ficou com a parte do dinheiro que correspondia ao vendedor; então, tomou posse do jumento conforme cabia ao comprador fazê-lo. O jumento talvez valesse umas vinte moedas de ouro. Ou seja, Nasruddin ficou sem um tostão: mas tinha comprado um jumento, cujos méritos ignorara, conforme agora se dava conta, até que tivessem sido tão brilhantemente retratados pelo leiloeiro da cidade.
"Nunca perco um bom negócio", disse Nasruddin a si mesmo, enquanto voltava pra casa com seu prêmio.
É por isso que lhe dão valor
"Nunca dê às pessoas coisa alguma que peçam, até que ao menos um dinha tenha se passado!", disse Nasruddin.
"Por que não, Nasruddin?"
"A experiência mostra que só dão valor a algo, quando têm a oportunidade de duvidar se irão ou não consegui-lo."
Nasruddin e a verdade
"Estas leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasruddin ao Rei; "elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente"
O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade - e o faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.
O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos que por ali entrassem.
Um édito foi proclamado: "Todos serão interrogados, Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado."
Nasruddin deu um passo à frente.
"Aonde vai?", perguntaram-lhe. "Estou a caminho da forca", respondeu Nasruddin calmamente. Redarguiram então eles: "Não acreditamos em você!"
"Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me"
"Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!"
Se Deus quiser
Uma noite, Nasruddin comentou com a mulher:
"Se amanhã chover, vou cortar lenha; se fizer tempo bom, vou arar a terra".
Sua mulher advertiu-o: "Diga 'se Deus quiser", Nasruddin, diga 'se Deus quiser'."
Ele se irritou: "Por que vou ter que dizer 'se Deus quiser'? Com toda certeza farei uma coisa ou outra"
No dia seguinte, o tempo estava bom. Nasruddin saiu para arar a terra, mas quando estava prestes a pegar no arado, começou a chover. Pôs-se então a caminho do bosque para que aí cortasse lenha, mas não tardou em cruzar com um homem a cavalo, que lhe perguntou: "Como se faz para chegar a tal povoado?"
"Não pergunte a mim, não sei", respondeu Nasruddin, e tratou de seguir seu caminho. Mas o homem ameaçou-o com um chicote e ordenou-lhe: "Pare! Vai me levar a tal povoado."
Nasruddin não teve outro remédio a não ser trocar de rumo. Acompanhou o homem ao povoado que, por sinal, era muito longe dali. Só pôde voltar para casa já bem tarde da noite. Bateu à porta, e sua mulher, lá de dentro, perguntou cautelosa: "Quem é?"
"Nasruddin, se Deus quiser".
Um momento no tempo
"O que é Destino?", foi a pergunta feita a Nasruddin por um estudioso.
"Uma sucessão interminável de eventos entrelaçados, um influenciando o outro."
"Não é uma resposta muito satisfatória. Eu acredito em causa e efeito."
"Muito bem. Veja só aquilo", respondeu Nasruddin, apontando um cortejo que passava justo por aquela rua.
"Aquele homem está sendo levado à força. Por que será? Por que alguém lhe deu uma moeda de prata que lhe permitiu comprar a faca com a qual cometeu um assassinato? Ou porque alguém testemunhou o crime? Ou foi porque ninguém o impediu de cometê-lo?"
Instinto
"Existem algumas coisas", disse Nasruddin, "que você, no fundo, sabe que devem ser falsas."
"Pode dar-me um exemplo?" perguntou alguém que sempre buscava por evidências do sobrenatural.
"Certamente: Outro dia, andando por aí, ouvi por acaso o boato de que eu estaria morto."
Não corra riscos
Um teólogo estava doente. Ele ouvira falar quer Nasruddin era um místico e, no seu meio delírio, convenceu-se de que, afinal de contas, algo de verdade deveria haver nisso tudo. Então, ordenou que buscassem Nasruddin.
"Prescreva-me uma oração que possa facilitar meu ingresso no outro mundo", disse, "já que você tem a reputação de estar em contato com outra dimensão."
"Com prazer" disse Nasruddin. "Ei-la: 'Deus, ajuda-me - Diabo, ajuda-me!"
Escandalizado, o santo homem esqueceu-se de sua enfermidade e, súbito, sentou-se.
"Nasruddin, você está louco?!"
"De jeito e maneira, meu caro. Um homem na sua posição não pode se dar ao luxo de correr riscos. Quando se encontra diante de duas alternativas, deve tentar fazer com que qualquer uma das duas funcione."
Percebe o que quero dizer
Nasruddin esparramava punhados de migalhas em volta de sua casa.
"O que você está fazendo?", alguém perguntou.
"Afugentando os tigres."
"Mas por aqui não há tigres!"
"Viu só como funciona?!"
O remédio
Um homem herdou uma grande fortuna, mas, em pouco tempo, dilapidou seu patrimônio de uma tal maneira, que não lhe restou um centavo sequer. Sem saber o que fazer, foi queixar-se a Nasruddin.
"Mullá, estou numa situação terrível", disse. "Estou a ponto de ter que pedir esmolas para sobreviver. Que faço? Qual é o remédio?"
Nasruddin refletiu por um instante e respondeu:
"Não se preocupe, suas aflições terminarão em breves."
O perdulário entusiasmou-se:
"Como? Acaso voltarei a ser rico?"
"Não, não." respondeu o Mullá, "você se acostumará a ser pobre!"
Allah suprirá
"Allah suprirá", dizia Nasruddin certo dia a um homem, que se queixava por alguém lhe ter roubado um dinheiro guardado em sua casa.
O homem expressou suas dúvidas.
Nasruddin levou-o à mesquita e rolou pelo chão, invocando Allah para que restituísse as vinte moedas de prata do homem.
Incomodada com aquela presença, a congregação angariou donativos e o total foi entregue ao supreso homem.
"Você pode não compreender os meios que operam neste mundo", disse o Mullá, "mas seguramente compreende o fim quando este lhe é entregue de forma tão concreta."
Em mim
Um monge disse a Nasruddin:
"Sou tão desapegado que nunca penso em mim, só nos outros."
Nasruddin respondeu:
"Sou tão objetivo que posso ver-me como se eu fosse outra pessoa; assim, sou capaz de pensar em mim".
Tudo o que se precisa
"Vou te enforcar", disse um rei cruel e ignorante, que ouvira falar dos poderes de Nasruddin, "se não provares que és um místico."
"Vejo coisas estranhas", disse Nasruddin de imediato; "um pássaro dourado no céu, demônios sob a terra."
"Como podes enxergar através de objetos sólidos? Como podes enxergar tão longe no céu?"
"Medo é tudo o que se precisa."
Profundezas escondidas
Um dia, andando pelo mercado, o Mullá viu que se vendiam pássaros por quinhentos reais cada. "Meu pássaro", pensou, "que é maior que todos esses, vale muito mais."
No dia seguinte, levou ao mercado sua galinha de estimação. Ninguém lhe ofereceu por ela mais que cinquenta reais. O Mullá começou a berrar.
"Gente! Isto é terrível! Ontem vocês vendiam pássaros com apenas a metado do tamanho do meu por um preço dez vezes maior! Alguém o interpelou: "Nasruddin, aqueles de ontem eram papagaios - passaros falantes. Valem mais, porque falam."
"Idiotas!", disse Nasruddin. "Vocês os valorizam só porque falam. Este pássaro aqui, que tem pensamentos maravilhosos e nem por isso incomoda os outros com conversa fiada, esses vocês rejeitam."
Não é tão difícil
Um vizinho queria que Nasruddin lhe emprestasse o varal.
"Lamento", disse Nasruddin, "estou usando-o para secar farinha."
"Afinal de contas, poderia me explicar como consegue secar farinha num varal?"
"É menos difícil do que se imagina quando não se quer emprestá-lo."
Ninguém reclama...
Hamza, um filósofo de terceira, professava verdades banais na casa de chá, pontificando num tom monótono e monocórdio: "Quão estranha é a humanidade! E pensar que o homem nunca está satisfeito! Quando é inverno, reclama do frio. Quando é verão, reclama do calor!"
Os presentes posavam de sábios aquiescendo com a cabeça, pois acreditavam que, desta forma, estariam compartilhando da essência daquela sabedoria.
Do alto de sua abstração, Nasruddin completou: "Já perceberam que ninguém reclama da primavera?"
Suposições
"Mullá, qual é o significado do destino?"
"Suposições."
"Em que sentido?"
"Você supõe que as coisas irão bem e elas não vão - a isto chama azar. Supõe que as coisas irão mal e elas não vão - a isto chama sorte. Supõe que certas coisas irão ou não acontecer - e na mais absoluta falta de intuição, não sabe o que irá acontecer. Você supõe que o futuro é desconhecido."
"Quando você é surpreendido - a isso chama Destino."
Medo
Certa noite enluarada, Nasruddin caminhava por uma estrada deserta, quando ouviu um ronco, que parecia vir de algum lugar sob seus pés. De repente ficou com medo, e já estava quase para sair correndo, quando tropeçou num dervixe estirado, semi-enterrado no chão, num buraco cavado por ele mesmo.
"Quem é você?", gaguejou Nasruddin, assustado.
"Sou um dervixe, e este é meu lugar de contemplação."
TErá que dividí-lo comigo. Seu ronco me assustou de tal forma que não posso mover um músculo sequer."
"Bem, neste caso, pegue a outra ponta do cobertor e deite-se aqui", propôs o ervixer sem nenhum entusiasmo. "Mas, por favor, fica quieto, porque estou em vigília. Faz parte de uma série muito complicada de exercícios. Amanhã devo mudar a sequência e não posso ser interrompido em hipótese alguma."
Nasruddin adormeceu e pouco depois acordou morto de sede.
"Tenho sede", disse ao dervixe.
"Dê um pulo na estrada, que lá tem um riacho."
"Não, não vou. Ainda estou com medo."
"Entãoi irei por você", disse o dervixe. "Afinal, dar água a quem tem sede é uma obrigação sagrada no Oriente."
"Não, por favor, não vá. Vou ficar com medo se ficar aqui sozinho."
"Tome esta faca para se defender", disse o dervixe.
Enquanto o dervixe não voltada, Nasruddin foi ficando cada vez mais apavorado, mergulhando numa onda de ansiedade, que tentava conter imaginando como é que atacaria algum espírito maligno que viesse ameaçá-lo.
Não demorou muito para que o dervixe voltasse.
"Alto lá ou mato você!", disse Nasruddin.
"Mas sou o dervixe!"
"Não me importa quem seja - pode muito bem ser um demônio disfarçado. Além do quê, sua cabeça e suas sobrancelhas estão raspadas." Os dervixes daquela ordem raspavam cabeça e sobrancelhas.
"Mas eu vim lhe trazer água! Será que você não se lembra de que está com sede?!"
"Para trás, demo! Não tente se engraçar comigo!"
"Mas esse lugar aí onde você está é meu!"
"Que azar, não é mesmo? Lamento, mas terá que encontrar um outro lugar."
"Que jeito", disse o dervixe. "A única certeza que me resta, é que não faço a menor idéia de como lidar com tudo isso."
"Posso dizer-lhe algo", disse Nasruddin. "Digo-lhe que o medo é multidirecional."
"Certamente, parece ser mais forte que a sede, a sanidade ou qualquer outra qualidade humana", disse o dervixe.
"Além disso, não precisa senti-lo você mesmo para sofrer com ele", disse Nasruddin.
Qual é a evidência real?
Um vizinho procurou Nasruddin.
"Mullá, me empresta seu burro?"
"Lamento", disse Mullá, "mas já o emprestei."
Assim que acabou de dizê-lo, o burro zurrou. O som vinha do estábulo de Nasruddin.
"Mas Mullá, posso ouvir o burro bem ali!"
Enquanto fechava a porta na cara do sujeito, Nasruddin falou, com toda altivez: "Um homem que prefere acreditar na palavra de um burro ao invés de acreditar na minha, não merece que lhe seja emprestada coisa alguma."
Acho que você está com a razão!
O Mullá foi empossado como juiz. Durante seu primeiro caso, o queixoso argumentou tão persuasivamente, que Nasruddin exclamou:
"Acho que você tem razão!"
O funcionário do tribunal rogou-lhe que se contivesse, pois o acusado ainda não havia sido ouvido.
Nasruddin ficou tão envolvido pela eloquencia do acusado, que exclamou assim que o homem terminara de expor suas evidências:
"Acho que você tem razão!"
O funcionário do tribunal não podia permitir que isto acontecesse.
"Excelência, não dá para os dois terem razão!"
"Acho que você tem razão!"
Como manter a coisa funcionando
Mullá Nasruddin costumava ficar pela rua nos dias de feira, para ser alvo da fama de idiota.
Não importava quantas vezes lhe oferecessem uma moeda grande e outra pequena, sempre ficava com a menor.
Um dia, um senhor amável e gentil disse-lhe:
"Mullá, você deveria ficar com a moeda maior. Assun terá mais dinheiro e as pessoas não irão mais debochar de você."
"Isto pode ser verdade", disse Nasruddin, "mas se eu sempre pegar a maior, as pessoas vão parar de oferecer-me dinheiro para provar que sou mais idiota que elas. E aí, eu não terei dinheiro nenhum."
Quem sou eu?
Depois de uma longa, Nasruddin deu de cara com a turbulenta multidão de Bagdá. Nunca havia visto um lugar tão grande, e confundiam-lhe a cabeça todas aquelas pessoas amontoadas pelas ruas.
"Num lugar assim", refletia Nasruddin consigo mesmo, "fico imaginando como é que as pessoas fazem para não se perderem de si mesmas, para saberem quem são."
Então, pensou: "Devo recordar-me bem de mim, caso contrário poderia perder-me de mim mesmo".
Mais que depressa, procurou uma hospedaria. Um sujeito brincalhão estava acomodado numa cama próxima àquela reservada a Nasruddin. O Mullá pensou em fazer a sesta, mas estava diante de um problema: como encontrar novamente a si mesmo ao acordar.
Confidenciou seu problema ao vizinho.
"Muito simples", disse o tal brincalhão. "Aqui tem um balão. Basta amarrá-lo na sua perna e ir dormir. Quando acordar, procure o homem com o balão e esse homem será você."
"Excelente idéia", disse Nasruddin.
Algumas horas depois, o Mullá acordou. Procurou o balão e achou-o amarrado na perna do vizinho brincalhão. "É, esse aí sou eu", pensou. Então, apavorado, começou a sacudir o sujeito: "Acorda! Algo aconteceu, do jeito que eu imaginei que aconteceria! Sua idéia não foi boa!"
O homem acordou e perguntou qual era o problema. Nasruddin apontou-lhe o balão. "Pelo balão, posso dizer que você sou eu. Mas se você sou eu, pelo amor de Deus, quem sou eu?"
A felicidade não está onde se procura
Nasruddin encontrou um homem desconsolado sentado à beira do caminho e perguntou-lhe os motivos de tanta aflição.
"Não há nada na vida que interesse, irmão", disse o homem. "Tenho dinheiro suficiente para não precisar trabalhar e estou nesta viagem só para procurar algo mais interessante do que a vida que levo em casa. Até agora, eu nada encontrei."
Sem mais palavras, Nasruddin arrancou-lhe a mochila e fugiu com ela estrada abaixo, correndo feito uma lebre. Como conhecia a região, foi capaz de tomar uma boa distância.
A estrada fazia uma curva e Nasruddin foi cortando caminho por vários atalhos, até que retornou à mesma estrada, muito à frente do homem que havia roubado. Colocou a mochila bem do lado da estrada e escondeu-se à espera do outro.
Logo apareceu o miserável viajante, caminhando pela estrada tortuosa, mais infeliz do que nunca pela perda da mochila. Assim que viu sua propriedade bem ali, à mão, correu para pegá-la, dando gritos de alegria.
"Essa é uma maneira de se produzir felicidade", disse Nasruddin.
Segundo a Lei de Deus
Alguns meninos encontraram uma sacola cheia de nozes e ficaram muito felizes. Mas esta felicidade durou apenas até decidirem repartir o conteúdo da sacola. Da algazarra, passaram ao desacordo, e daí à luta corpo a corpo. Como dessa maneira não encontraram solução, recorreram a Nasruddin para que desempenhasse o papel de mediador e juiz.
Este, tomando a sacola de nozes, perguntou: "Que lei vocês querem que eu use para repartir essas nozes, a lei dos homens ou a lei de Deus?"
"A lei de Deus", responderam os meninos em uníssono.
Nasruddin então começou a divisão dando duas a um, um punhado a outro, três a este, quatro àquele e aos restantes não lhes deu nada.
Imediatamente, os que nada receberam começaram a queixar-se: "Mas Mullá, que tipo de lei você aplicou?"
"Meus filhos", explicou Nasruddin, reparti segundo a lei de Deus: a uns muito, a outros pouco, e a alguns nada. Se vocês tivessem escolhido a lei dos homens, as coisas teriam sido muito diferentes."
Doente, graças a Deus
Nasruddin, sentado na sala de espera do consultório médico, repetia em voz alta: "Espero que eu esteja muito doente", o que intrigava os outros pacientes. Quando o médico apareceu, Nasruddin repetia quase gritando: "Espero que eu esteja muito doente".
"Por que você diz isso?", perguntou-lhe o médico.
"Detestaria pensar que alguém que se sinta tão mal como eu não tenha nada."
Como estudar
"Como foi que você aprendeu tanto, Mullá?", perguntaram certa vez a Nasruddin.
"Falando muito", respondeu ele. "Vou colocando em sequência todas as palavras que me ocorram. Quando eu fico interessante, posso ver o respeito no rosto das outras pessoas. Na hora em que isso acontece, começo a tomar nota mentalmente do que disse."
Picada de cobra
Perguntaram a Nasruddin: "Para que esse antídoto contra picada de cobra, Mullá?"
"É que peguei um pedaço de pau e achei que era uma cobra", respondeu Nasruddin.
"Mas um pedaço de pau não o picaria!"
"E a cobra de verdade que eu peguei para bater no pedaço de pau?"
Livros e coelhos
"A maior parte do que as pessoas fazem é exatamente igual ao que fazem os animais, só que elas pensam que são diferentes", disse Nasruddin na casa de chá.
"Isso é ridículo!", protestou um monge. "SE você estivesse certo, coelhos estariam escrevendo livros."
"Tenho certeza que estariam", disse Nasruddin calmamente, "se, de tempos em tempos, esquecessem-se do seu premente desejo de comer cenouras."
Quantidade e Qualidade
Nasruddin estava levando um carregamento de uvas ao mercado. Um grupo de crianças pedia insistentemente para comê-las, mas ele deu só um pouquinho para cada uma.
"Como você é mesquinho, Nasruddin!", gritavam elas.
"Não sou, não", disse o Mullá. "Estou fazendo isso para demonstrar a tolice das crianças. Todas essas uvas têm o mesmo gosto. Tendo provado algumas, você já sabe como são todas as outras."
Se é pelo manto e pelo turbante...
Um iraniano pediu ao Mullá que lhe lesse uma carta que recebera de um amigo.
O Mullá olhou para a carta. Estava escrita em persa, e a caligrafia era péssima. Então disse ao homem: "Arruma outra pessoa para lê-la".
O homem insistiu.
"Escuta! Eu não sei persa", explicou Nasruddin. "E ainda que fosse um turco, a letra de seu amigo é tão ruim que eu não seria capaz de lê-la".
O iraniano enlouqueceu: "Você está vestindo um turbante e um manto de tal imponência, e não é capaz de ler uma simples carta?! Você deveria se envergonhar!"
Nasruddin tirou seu turbante e seu manto e deu-os ao iraniano: "Então leia a carta você mesmo".
Não fui eu quem começou
Nasruddin entrou numa mesquita. Sua camisa era um pouco curta, e o homem que estava atrás dele puxou-a para baixo, achando que não ficava bem usar uma camisa assim. Imediatamente, Nasruddin puxou a camisa do homem que estava à sua frente. Este lhe perguntou:
"O que você está fazendo?"
"Não pergunte a mim", respondeu Nasruddin. "Pergunte ao homem de trás - ele que começou."
O segredo
Um pretendente a discípulo perseguia Nasruddin, fazendo-lhe uma pergunta atrás da outra. O Mullá respondia a todas, e percebia que o homem não estava inteiramente satisfeito. Entretanto, estava na verdade fazendo progressos.
Finalmente o homem falou: "Mestre, eu preciso que você me guie mais explicitamente".
"Qual é o problema?"
"Eu preciso continuar fazendo as coisas, e, embora eu progrida, quero ir mais rápido. Por favor, conte-me um segredo, como já o ouvi contar a outros."
"Eu lhe contarei quando você estiver preparado."
Mais tarde, o homem voltou ao mesmo assunto.
"Muito bem", disse Nasruddin, "você sabe que deve seguir meu exemplo?"
"Sei."
"Você pode guardar um segredo?"
"Eu jamais o revelaria a alguém."
"Então observe que eu posso guardar um segredo tão bem quanto você."
A comida do manto
Nasruddin ouviu dizer que um banquete seria servido em uma aldeia próxima, e que todos estavam convidados. Foi até lá o mais rápido que pôde. Quando o mestre de cerimônias viu-o com seu manto esfarrapado, colocou-o no pior lugar, longe da grande mesa onde os mais importantes estavam sendo servidos com todas as regalias.
Nasruddin viu que demoraria no mínimo uma hora para que os garçons chegassem até onde ele estava sentado. Sendo assim, levantou-se e foi-se embora. Chegando em casa, vestiu um manto e um turbante magníficos, e voltou para a festa. Assim que os arautos do Emir, seu anfitrião, avistaram aquela maravilhosa figura, começaram a bater tambores de boas vindas e a soar as trombetas de forma condizente à recepção de um visitante de alta estirpe.
O próprio camareiro real saiu do palácio e conduziu o magnífico Nasruddin a um lugar ao lado do Emir. Um prato com iguarias maravilhosas foi imediatamente colocado à sua frente. Então, Nasruddin pegou a comida com as mãos e começou a esfregá-la em seu turbante e em seu manto.
"Vossa Eminência", disse o Emir, "estou curioso quanto a seus costumes à mesa, que são inteiramente novos para mim"
"Não é nada demais", disse Nasruddin. "O manto me fez chegar até aqui, me trouxe a comida - você não acha que ele merece a sua parte?"
Isto por aquilo
Nasruddin foi a uma loja para comprar uma calça. Mudou de idéia e escolheu um manto que custava o mesmo preço. Pegou o manto e saiu da loja.
"Você não pagou!", gritou o vendedor.
"Eu deixei a calça, que custa o mesmo que o manto."
"Mas você também não pagou a calça!"
"E por que eu deveria pagar por algo que não quis comprar?!"
Apenas supondo
O Mullá caminhava pela rua, absorto em seus pensamentos, quando, de repente, uns pirralhos começaram a atirar pedras nele.
"Não façam isso e eu lhes contarei algo que lhes interessa."
"Está bem, o que é? Mas não venha com filosofia."
"O Emir está oferecendo um banquete aberto a todos."
As crianças saíram correndo para o palácio, enquanto Nasruddin começava a entusiasmar-se com sua história, com as guloseimas e delícias da festa.
Levantou os olhos e viu-os desaparecendo ao longe. De repente, levantou sua túnica e saiu correndo atrás deles.
"É melho que eu vá e veja", disse Nasruddin ofegante, "pois afinal bem que poderia ser verdade."